terça-feira, 5 de maio de 2026

Vazio


Arranquei as cascas

das feridas cicatrizadas

para relembrar como é sentir dor.


Pois agora sou vazia,

intensamente vazia,

ao ponto de vomitar suco gástrico

para performar uma reação qualquer.


As larvas comem devagar

esse pus nojento que escorre

do joelho machucado.

Algumas põem ovos,

querem me preencher.


Terei belos filhos voando por aí.


Será que a vida humana vale uma guerra?

Será que quarenta e seis mil mortes valem toda prata e ouro?

Será que esses políticos também são vazios

ou o sofrimento os sacia?


Um peão preso a um jogo imbecil,

uma luta perdida,

uma alma que vaga nos campos de batalha

procurando sua mãe e seu pai

diante de tantos corpos jogados a esmo.


Teve uma época em que eu corria livremente, feliz.

Agora ando devagar, mancando,

com medo das bombas.


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